O subúrbio que reneguei

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Outro dia dei entrevista para um pessoal que está fazendo um documentário sobre o samba da Zona Oeste. Ao final, o documentarista me perguntou se eu percebi alguma mudança no olhar da Zona Sul sobre os moradores do subúrbio. Logo me veio à cabeça o tempo em que entrei para a faculdade, em Botafogo, início dos anos 1990. Eu, moradora de Realengo, ouvi umas duas ou três vezes que eu não tinha “cara de suburbana”. Achava um elogio, tinha internalizado que ter cara de suburbana  era ter cara de pobre, de falta, de ausência, de “desprovida de”. Era não ser aceita. Ainda mais depois de perder algumas oportunidades de emprego ao expor o meu CEP. Não foram poucas as vezes na minha adolescência – vivida plenamente no subúrbio – que escutei que dançar forró era feio, que frequentar a umbanda era coisa de gente sem instrução, que gostar de rapadura era falta de conhecimento. Filha de um português com uma cearense, descobri que era mais fácil sufocar minha veia nordestina. Sem referências que pudessem me ajudar a entender que a subalternidade é uma construção social, tive vergonha das minhas origens. Curiosamente, foi o jornalismo que me fez começar a entender que não era nada disso. Mas foram, sobretudo, os estudos que me mostraram que sempre houve – e sempre haverá – a intenção de subjugar as culturas de determinados grupos. Alguns sempre querem se sentir superiores a outros, mesmo que à força.  Hoje, claro, sou outra pessoa. A suburbanidade (nem sei se essa palavra existe) me define, com toda a mistura que essa expressão carrega. Por isso, ontem me emocionei profundamente ao ver as imagens dos dançarinos vestidos de bonecos de Mestre Vitalino. Torço, com toda a esperança que me é escassa, que nenhuma criança tenha vergonha das bonecas de pano que a avó faz,  do forró que seu tio coloca alto todos os domingos, da renda de bilro, da garrafinha  de areia colorida, que seus parentes trouxeram de presente para enfeitar a sua estante. Que a vida possa ter mais rapadura e menos azedume da soberba.

Teoria do vácuo

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Céu Chileno. Foto: Bárbara Pereira

Um dos pensadores brasileiros mais brilhantes que tive a oportunidade de entrevistar foi o filósofo Silvio Gallo. Foram poucas as vezes em que estivemos juntos, duas ou três. Mas foi o suficiente para aprender e muito. Fiquei tão curiosa para saber o que mais ele pensava que comprei um de seus livros: Pedagogia do Risco, que fala sobre experiências anarquistas em educação. Uma das coisas que me chamaram a atenção foi o fato de que os anarquistas tinham que se implicar em qualquer decisão tomada pelo grupo. Não bastava um indivíduo pensar e os outros seguirem, todos tinham que ter um posicionamento sobre a questão em pauta. Pensando nisso, comecei a observar as reuniões de trabalho das quais participava. Vez em sempre, duas ou três pessoas tinham ideias, outras duas acrescentavam sugestões e o restante, a maioria, tratava de desqualificar as propostas sugeridas. E quando essas pessoas eram questionadas se tinham algo melhor a propor a resposta era sempre….”não sei”. Inspirada nessas cenas, e na experiência anarquista, criei a teoria do vácuo. Ela é composta por gente que não gosta de criar, gosta mesmo de esperar que outro crie para ir lá e se posicionar contra. Mostrar opinião dá status, mesmo que seja sempre contrária. É gente que fica no vácuo de quem cria, de quem se esforça, de quem busca pensar sobre o que está em jogo. Porque tudo isso dá trabalho. Muito trabalho. E destruir é mais fácil – e bem menos trabalhoso – que construir. Por isso, fico com os anarquistas. Mesmo que o pessoal do vácuo me desanime de vez em quando, vou me posicionar sempre. É mais honesto e mais construtivo.

O erro é o culpado

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Quando eu era pequena, ficava sozinha em casa durante o dia porque meus pais trabalhavam fora. Os parentes próximos ajudavam a dar uma “olhadinha”, depois das manhãs na escola. Eu gostava e não gostava. Gostava porque não tinha nenhum adulto por perto. Não gostava porque tinha que tomar decisões…sozinha. O que comer? A que horas tomar banho? A que horas deveria estudar? De quanto em quanto tempo deveria tomar o remédio quando estava gripada? Para uma criança são decisões e tanto. Uma vez, já adulta, assisti a um documentário que tratava de um problema enfrentado pelas crianças órfãs vítimas da Segunda Guerra Mundial. Como os orfanatos ficaram cheios, não havia cuidadoras suficientes para atender aos bebês. Na maioria das vezes, não adiantava chorar. Eles foram aprendendo que iam ter que se virar sozinhos. Isso pode ser bom, mas também pode ser ruim. O lado bom é aprender a se virar. O lado ruim é que esse aprendizado tem efeitos colaterais. O erro, a falha, ou o mínimo escorregão passam a não ser admitidos por quem aprende a crescer na marra. Como se errar não fosse possível. Os outros podem, eu não. É claro que seria um certo exagero comparar o meu crescimento ao das crianças órfãs. Mas esse documentário me fez entender o quanto eu tinha medo de errar. Mas aí você pode se perguntar: e quem não tem? A questão está no excesso. Ter qualquer medo excessivo é prejudicial à saúde. Ao longo da vida, conheci pessoas – em especial no ambiente de trabalho – que não se permitiam errar. Uma missão impossível, afinal faz parte da vida. Foi depois de muita conversa, de alguns textos e de uns erros, claro, que compreendi que essa busca insana pela perfeição (o contrário do erro) é uma espécie de neurose e que precisa de reflexão (terapia) ou, nos casos mais graves, tratamento (remédio). Se o próprio método usado nas grandes descobertas da ciência trabalha com tentativa e erro, por que nós, que estamos nos experimentando o tempo todo, temos que eliminar o erro da nossa trajetória? E não estou falando do erro que coloca em risco. E sim do erro possível. Aquele em que a gente se pergunta: errei? Mas e daí? Se as consequências não passam de aprendizagem, por que apontar o erro como culpado? Ele não fez mais do que o trabalho dele.

Foto tirada por mim numa das estradas dessa vida.

Foto tirada por mim numa das estradas dessa vida.

Menos ainda

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Hoje eu vi uns cinco meninos lavando os pés sujos das ruas numa bica de um posto de gasolina. A sociedade teima em chamá-los de pivetes, mas eram só meninos brincando com um pouco da água cedida pelo frentista.

Hoje eu vi um jovem deitado na entrada da porta de uma loja de uma grande rede de comida fast food. Sei que era jovem pelos traços, não pelas roupas, quase inexistentes, nem pela sujeira que escondia suas feições.

Hoje eu vi uma senhora, com seus cabelos brancos enrolados num coque alto e elegante. Ela almoçava numa lanchonete de um supermercado. Ao seu lado, um carrinho, daqueles de feira, carregava a sua casa. Não sei se era idosa ou se as muitas marcas no seu rosto eram expressões do que tinha vivido.

Hoje eu vi uma mulher numa cadeira de rodas vestida de Branca de Neve na porta de uma igreja. Ela tentava vender lenços de papel. Não era engraçado. Era triste como a sua voz.

Esse hoje teve menos de 24 horas. Ou melhor, foi apenas uma tarde. Foi um dia de corre-corre pelo centro do Rio de Janeiro, uma cidade que não tem o pior IDH do país. Uma cidade que se orgulha de ser olímpica. Uma cidade que é linda e feia ao mesmo tempo. Que não trata bem os seus moradores. Especialmente os que têm muito pouco.

E a sociedade ainda quer que eles tenham menos do nada que eles já têm.

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corre pelo centro do Rio de Janeiro, uma cidade que não tem o pior IDH do país. Uma cidade que se orgulha de ser olímpica. Uma cidade que é linda e feia ao mesmo tempo. Que não trata bem os seus moradores. Especialmente os que têm muito pouco.

E a sociedade ainda quer que eles tenham menos do nada que eles já têm.

Memória que não se apaga

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Nos estudos sobre memória social nos deparamos com um pensador que trata das memórias subterrâneas. O sociólogo austríaco Michael Pollak se dedicou a observar aquelas memórias que são escondidas por determinados grupos do resto da sociedade, a dominante. São as memórias dos que vivem à margem, como os negros, os homossexuais, os praticantes de religiões perseguidas.

Faço essa introdução toda para falar de algo que vejo em curso: o desejo de apagamento da memória do pensamento de esquerda, ao menos no Brasil. Hoje, em qualquer conversa banal, se o sujeito diz que é de esquerda pode ser massacrado, de forma simbólica ou real. Já me pego em conversas em que as pessoas confessam baixinho, outras fazem apenas gestos e ainda tem aquelas que só contam se estiverem entre os iguais. Parece até uma volta no tempo da ditadura (eu não vivi, mas ouvi muitas histórias) em que os militantes só podiam falar desses assuntos se estivessem locais fechados e seguros.

Estão fazendo de um tudo, como se diz lá no subúrbio, para que os adeptos de pensamentos de esquerda (e aqui não estou falando de partidos, mas sim de ideias) se sintam envergonhados por acreditar em distribuição de renda, condições igualitárias para todos, conquistas trabalhistas e afins. Tudo isso virou ofensa grave se dito e defendido publicamente. O importante é pensar como os americanos e fazer com que cada um, sozinho, corra atrás do seu quinhão. Mesmo se na hora da corrida a largada tenha milhares de descalços e apenas um pequeno grupo com o par de tênis adequado. De preferência importado, porque “nada produzido no Brasil presta”. Antes que eu receba algumas bordoadas por causa desse texto, quero reiterar que corrupção não é sinônimo de esquerda e que, embora hoje a polaridade esquerda x direita esteja um pouco embaralhada, ser de esquerda não é crime, pecado ou coisa do satanás. E também não está restrita a nenhum partido. Pode ser roxo, verde ou laranja. Ser de esquerda representa apenas um posicionamento de vida, nada mais.

Então, para os que querem apagar uma memória de esquerda, fica a dica de Pollak: as memórias subterrâneas sobrevivem. Passam de geração para geração por meio dos grupos sociais e familiares. Elas resistem na clandestinidade e, como diz o próprio pesquisador, “irrompem em momentos de conflito”. Podem continuar tentando apagar, mas, assim como naqueles cadernos escritos a lápis, a borracha não consegue eliminar todos vestígios.

Sobre o que passa e o que fica

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Foto: Bárbara Pereira. Ensaio sobre vazios no Morro da Conceição.

Ensaio sobre vazios no Morro da Conceição, no Rio de Janeiro. Fotos: Bárbara Pereira.

Na semana passada, tive um embate produtivo com um grande amigo sobre o que fica e o que passa. O “debate” girava em torno da ideia de que diante da finitude deveríamos relevar alguns “ruídos de comunicação” surgidos nas relações de amizade. Será? Quem passa anos na cadeira do terapeuta sabe que a descoberta dos seus limites é uma das questões importantes a serem resolvidas com ajuda do Seu Freud e do Seu Lacan. Aprender a dizer não é algo poderoso na aventura que é entender quem você  é. E não estamos falando do não simplista, aquele do dia a dia. É  daquele não que importa, o não para o que te incomoda, o não para o que te afeta. Um exercício que parece simples, mas não é. Nao é fácil porque pressupõe escolhas, e na análise você aprende também que ao lado de uma escolha haverá sempre uma perda. Assim como na velha e às vezes boa auto-ajuda, não dá pra agradar a todos (o clichê tem o seu papel na vida). Isso porque não há todos, nem tudo. Há lados, partes, metades, rupturas, rachaduras. Ainda mais nas relações.

Foto: Bárbara Pereira. Ensaio sobre vazios no Morro da Conceição, no Rio de Janeiro.

Morro da Conceição, Rio de Janeiro.

Nas relações existem coisas que não são possíveis de serem resgatadas, nem recomeçadas. E só você é quem sabe definir esse limite. Já experimentei relações de amizade em que o outro lado avançou fronteiras “com gosto”, como diria o vocabulário popular. Mas consegui superar e seguir adiante, inclusive no desejo de manter a relação. E não me peçam explicação. Simplesmente havia algo no outro que me atraía de forma positiva e isso justificava, ao menos pra mim, a manutenção da amizade. Mas já houve situações em que amigos – ou mesmo conhecidos – ultrapassaram barreiras aparentemente banais, só que não são. Muitas vezes um avanço de sinal é só um avanço de sinal, outras causa atropelamento. Não se trata de perdão ou qualquer outro sentido religioso. Tem a ver com o que não queremos mais.

Foto: Bárbara Pereira. Ensaio sobre vazios no Morro da Conceição

Morro da Conceição, Rio de Janeiro.

Então, só nos resta entender que não podemos nos culpar quando não desejamos mais nenhuma tentativa de aproximação com pessoas que, segundo a linguagem do mundo corporativo, não agregaram valor. Simplesmente passaram. Não produziram nada pra ficar, ao menos para nós.  O que fica e o que passa para uns não é o mesmo que para outros. E é desse movimento que é feita a vida. Às vezes de nãos, outras de sins. E no meio deles as nossas escolhas e os nossos limites.

Paraty

Paraty, Rio de Janeiro.

Sobre afetos e afetações

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Dizem por aí que tenho um olhar um pouco duro para algumas coisas, mas a maturidade ou a idade – nem sempre o que pensamos que adquirimos é de fato a tal da maturidade – tem me feito pensar muito sobre a dureza e o seu oposto. Mais jovem – e como quase todo jovem – tinha certezas, verdades, definia com bastante convicção o que entendia por certo e por errado. Aí veio a vida, com seus trancos e barrancos, e tratou de mostrar que viver vai muito além de frases de efeito, como a que diz que é preciso separar o joio do trigo. Às vezes é preciso misturá-los. Numa dessas situações que mexem com as suas placas tectônicas, e seu chão já não é mais tão firme quanto idealizava, você, que via tudo com uma suposta clareza, passa a enxergar embaçado, com cores nada nítidas e, em alguns casos, apenas em preto e branco. E é aí que uma espécie de portal se abre. É quando você passa a ver que o encantamento é artigo fora de moda. Ninguém se encanta mais pelo jeito de ser de um outro qualquer, não acha graça nos pequenos detalhes que têm – ou não – a ver com o seu. A diversão está em consumir, ainda que sejam pessoas. Que algumas das amizades, aquelas de anos, não eram tão cordiais assim. Estavam baseadas no velho e antigo escambo. Se você me dá algo aí sim eu também te dou. Que um trabalho é parte da vida, mas não é a vida. São as relações construídas a partir dele que permanecem. Afinal, um dia você é demitido, se aposenta ou morre. Mas, no meio do embaçado, você consegue ver, como diz a letra do samba, que ainda resta um pouco de esperança. E que, assim como você, existem outras criaturas que também enxergam embaçado. Você se junta a elas e segue nessa estrada com uma iluminação um tanto quanto indefinida que é a vida. E nesse caminho você não tem mais tempo – nem paciência – para afetações, como as definidas no dicionário: falsidade, fingimento, vaidade, presunção. Ou para aquelas agregadas no dia a dia e que não constam no dicionário: grosseria, falta de educação, deselegância, descuido. Então, para quem acha que tendo à dureza, sim sou dura. Sou dura na postura de não aceitar afetações. Só afetos. E quanto mais embaçado…melhor.

Porto de Marselha, França. Foto: Bárbara Pereira

Porto de Marselha, França. Foto: Bárbara Pereira